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Coluna do Sami – Cresce a intolerância

Sami Goldstein

A crise econômica que se abateu sobre o mundo a partir de 1929 consolidou o terreno fértil e apropriado para o rearranjo do poder em escala global. No caso específico da Alemanha, foi o gás necessário para definitivamente fazer mover a roda do nacionalismo em sua forma mais exacerbada. O Tratado de Versalhes imposto pelos aliados para o fim das hostilidades da Primeira Grande Guerra mergulhou aquele país no caos. De acordo com o professor e historiador Voltaire Schilling, “a conjuntura externa caótica e a situação interna de desespero conduzem Hitler ao poder na Alemanha em 1933. Atuando implacavelmente, em menos de um ano sufocou todos os movimentos oposicionistas (sociais-democratas, comunistas e liberais), dando início à “Revolução Nacional-Socialista” que tinha como objetivo fazer a Alemanha retornar ao grau de potência europeia. Naturalmente que, para tal, era necessário romper com o tratado de Versalhes, pois este impedia a conquista do “espaço vital”, como o rearmamento. Atenuava-se o desemprego e atendiam-se as necessidades da poderosa burguesia financeira e industrial da Alemanha. Para evitar a má vontade das potências ocidentais, Hitler coloca-se como campeão do anticomunismo a nível mundial, assinando com o Japão (novembro de 1936) e com a Itália (janeiro de 1937) o Pacto Anti-Comintern – cujo fim é ampliar o isolamento da URSS e, quando for possível, atacá-la.”. E todo totalitarismo pressupõe a identificação de um “culpado”, um bode expiatório na realidade. Para o nazismo em ascensão, os judeus eram os responsáveis por todos os males da sociedade alemã. Foi apenas o estopim para uma política racial que passou a também perseguir ciganos, testemunhas de Jeová, afrodescendentes e homossexuais, dentre outros.

A História é cíclica e, de tempos em tempos, traz de volta enredos já conhecidos com roupagens e personagens novos. Um mapa elaborado pela antropóloga Adriana Dias apontou que as células de grupos neonazistas cresceram 270,6% no Brasil entre janeiro de 2019 e maio de 2021, e se espalharam por todas as regiões do país, impulsionadas pelos discursos de ódio e extremistas contra as minorias representativas, amparados pela falta de punição. Em entrevista ao “Fantástico”, Dias revelou que existem pelo menos 530 núcleos extremistas, que podem conter cerca de 10 mil pessoas ativas, operando no Brasil hoje. Segundo a antropóloga, a maioria dessas pessoas se identificam como neonazistas e têm em comum o ódio contra feministas, judeus, negros e a população LGBTQIAP+.

Figuras emblemáticas e discursos de ódio são frequentemente precedidos por balões de ensaio em que são testados os limites de sua atuação. Quando percebem não haver limites, seja pela receptividade das ideias, seja pelo sentimento de impunidade, avançam sem medida. Patriotismo acaba sendo confundido com nacionalismo e dando asas ao extremismo. Isso precisa ser combatido. Ainda mais em um país como o nosso, multicultural e miscigenado, no qual somos a soma de tantas e maravilhosas misturas que nos precederam e ainda vão nos suceder. Seja o religioso Adão que veio do barro ou o científico homem que veio de um ancestral comum do macaco, já nascemos misturados com algo em nosso sangue. A única raça pura é aquela que nunca existiu. O Brasil é de todos e nosso DNA tem no pluralismo seu principal componente. Cresce a intolerância, mas também cresce nossa indignação e repúdio a práticas que só trouxeram dor e sofrimento à humanidade. Passou da hora de dar um basta a isso. Pois todos sabemos o final desta história…