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Cooperativa com 18 anos agoniza por falta de resíduos

O presidente da Cooperlínia, que já foi modelo de sucesso em todo o Brasil, apela para que autoridades tracem plano para salvar cadeia da reciclagem
Que a pandemia do Coronovírus tem efeitos devastadores em todas as áreas da sociedade, nós já sabemos, mas um setor em especial perece de forma mais intensa e silenciosa devido à falta histórica de investimentos e conscientização – a da reciclagem. De acordo com a Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais) com as pessoas passando mais tempo em casa, os resíduos tendem a aumentar entre 15% e 25%, segundo estudo do final de abril.
Há praticamente dois meses, as autoridades brasileiras recomendam o isolamento social como forma de conter o avanço do Coronavírus. Quem pode ficar em casa, está colaborando e, com a taxa de adesão ao isolamento em torno de 50% na região de Campinas, há um reflexo direto no descarte. Porém, o que antes era reaproveitado e enviado para a reciclagem corretamente, hoje se perde, muito pela falta de políticas públicas, como lamenta o presidente da Cooperlínia, Cooperativa de Reciclagem de Paulínia, fundada há 18 anos. José Carlos Silva conta que a equipe ficou em casa por mais de um mês, e que agora, voltando ao trabalho, sofre com a falta da segregação adequada domiciliar, o que resulta em grandes perdas de material, que fatalmente, acaba no aterro.
“Nossa vida sempre foi difícil porque, infelizmente, ainda precisamos lutar para que os políticos se sensibilizem com a causa e se comprometam com educação ambiental e coleta seletiva, mas agora enfrentamos nosso pior momento. Estamos às vias de fechar e mandar todo mundo embora, por falta de material para trabalharmos com dignidade e por falta de apoio”, desabafa. Ele explica que a cooperativa, que conta com 25 pessoas, ficou parada para evitar contaminação e, nesse período, os resíduos recicláveis foram encaminhados para o Aterro Estre, e separados por uma máquina. Agora, que estão retornando às atividades, seguindo todos os protocolos de higiene, os cooperados estão sofrendo com a qualidade dos materiais que chegam. “Nós precisamos do mínimo de separação correta dentro das casas, para que nosso serviço valha a pena. Quando o material chega para nós, está contaminado por resíduos orgânicos e perdemos tudo, infelizmente uma situação terrível. Não há o que separar!”
José Carlos conta que a cooperativa, que foi modelo de negócios e sustentabilidade e referência no Brasil, chegou a separar, em sua melhor época, 250 toneladas de resíduos por mês, com cerca de 20% de rejeito e oferecia dignidade para 42 famílias, há cerca de cinco anos. Recentemente estava trabalhando com metade desse número, segregando 130 toneladas por mês, dos quais quase 50% são perdidos devido à contaminação.
Apelo


Os cooperados trabalham com equipamentos de proteção individual, têm refeições e dividem os rendimentos, mas para isso precisam da matéria-prima. O que para muitos não serve mais, é dignidade para quem vive do lixo e movimenta uma cadeia milionária. Agora, nesse momento de pandemia, atendem mais exigências de higiene, inclusive só manuseiam resíduos que ficam em “quarentena” numa baía de recebimento por quatro dias, período considerado ideal que impede a possibilidade de contaminação da permanência do vírus nos materiais recicláveis.
“Vários setores vão precisar de ajuda para se reerguerem, principalmente o nosso, porque ainda falta muita responsabilidade dos cidadãos e os políticos. E para nos ajudar basta pouco, que o prefeito melhore a estrutura que já existe e reforce o trabalho de conscientização, levando a sério a questão. Enquanto isso não acontece, clamamos por ajuda imediata, porque não sabemos nem como pagar os rendimentos do próximo mês”, intercede José Carlos.
Condomínios
Dos últimos anos para cá, a Cooperlínia estava trabalhando com resíduos industriais e de condomínios, considerados de baixo rejeito, mas José Carlos conta que o descaso está tamanho que até os moradores dos residenciais começaram a relaxar na hora de separar. “Para isso também pedimos ajuda da prefeitura para que possamos alcançar mais condomínios. Numa cidade com 70, atendemos apenas dez. Isso é muito ruim, não há incentivo de nenhuma parte”.
Descaso nacional
O Brasil é um dos poucos países onde a reciclagem de materiais não é considerada essencial. Com base em dados de 10 de abril, o BIR (Bureau of International Recycling), que representa cerca de 30 mil recicladores em mais de 70 países em todo o mundo, divulgou estudo, no qual mostra globalmente onde a atividade de reciclagem foi considerada essencial neste período de pandemia da Covid-19.
Conforme a entidade, países como a China, EUA, Itália, Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Canadá e Chile autorizaram a operação das empresas que coletam, classificam e processam materiais recicláveis, por considerá-la essencial para proteger a saúde humana e o meio ambiente.
O Brasil é um dos poucos, entre os países membros do BIR, onde essa atividade continua sendo considerada não essencial, embora tenha uma das maiores cadeias de reciclagem de materiais do mundo.
“Lamentamos essa situação de descaso estrutural, onde quem quer fazer alguma coisa, luta praticamente sozinho. É muito triste porque penso muito nas famílias que vivem dignamente numa estrutura. Muitos fugiram da situação de catadores de rua, agora imaginem o retrocesso que vivemos”, finaliza o presidente da Cooperlínia Ambiental do Brasil.

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