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E o mundo silenciou… de novo!

Sami Goldstein

Ainda pequeno, li um livro chamado “… e o mundo silenciou”. Publicado em 1972, o autor narra suas experiências como prisioneiro durante a Segunda Guerra Mundial. Constantes lutas pela sobrevivência, contra a fome, doenças, maus-tratos, além do medo de ser executado. Mais que o texto e as imagens em si, o livro sempre se manteve em minha cabeça por seu título. Uma mensagem forte e marcante. Afinal, como pôde o mundo silenciar ante tudo que ocorria? Passados mais de 80 anos, a pergunta é mais que atual. Diante da situação de conflito mais grave desde a década de 1940, o mundo novamente silencia. Mas, ao mesmo tempo, fala demais sem dizer muita coisa. Nesse ínterim, as cenas de horror dos livros de História ganham vida, desta vez em cores e em tempo real. As câmeras de alta definição nos colocam no instante da ocorrência. Somos testemunhas de cenas de horror. Residências bombardeadas. Corpos dilacerados e carbonizados. Pessoas correndo em fuga rumo ao incerto. Maternidades atingidas. Crianças chorando de medo. Órfãos se multiplicando. Valas comuns. Insanidade à solta. Estamos lá sem estar lá. Estamos vendo com nossos próprios olhos. E ao mesmo tempo não estamos lá. Não é da nossa conta. É lá. Lá longe. Silenciamos. Ou falamos, proferimos palavras que pouco ajudam. Na maioria das vezes, queremos encontrar a justificativa e aí sim travamos uma nova guerra, desta vez nas redes sociais, para ver quem tem a razão. Quem sabe a verdade. Que é o maioral do conhecimento. Empunhamos uma arma sem munição ou uma bandeira da paz sem mastro. Pouco agimos além de falar. O “lá longe” nos comove, mas não nos toca. E por quê?

Mais perturbador que o grito dos oprimidos é o silêncio dos confortáveis. Em especial no Brasil onde a guerra, em ano eleitoral, virou motivo para mais polarização. Temos os “prós” esses, os “contra” aqueles, muitos argumentando sobre nazismo, fascismo, comunismo, extremismo e todos os “ismos” do dicionário, todos falando bastante e dizendo pouco. Palavras ao vento não são a solução desta tragédia. Como pai, é impossível conter as lágrimas vendo crianças desabrigadas e assustadas. Como homem, é impossível assistir passivamente uma atrocidade com consequências imprevisíveis. O mundo está preocupado com petróleo, gás e até fertilizantes. Mas qual o preço das vidas perdidas? Aliás, elas têm preço ou valor? Aquelas pessoas estão sem combustível, sem alimentos, por vezes sem roupas para o frio do inverno europeu e estão correndo por sua sobrevivência. Suas vidas valem menos que nosso conforto? Hoje são elas, amanhã poderemos ser nós. A passividade humana ante a tragédia é sua principal fraqueza. Nossa mesquinharia ante o sofrimento é totalmente descabida.

Concluo contando uma história verdadeira. Nos Estados Unidos, um senhor bem idoso e solitário faleceu. Quando procuraram em suas coisas por informações, encontraram uma caixa. Nela, havia uma roupa listrada bem surrada e amarelada pelo tempo. Era o uniforme de um campo de concentração. Ao lado, um bilhete com os seguintes dizeres: “por favor, enterrem-me com esta roupa, pois foi com ela que papai e mamãe me viram pela última vez. Quero que me reconheçam quando chegar do outro lado.”. Essa é a guerra. Quantos papais e mamães estão vendo seus filhos pela última vez nesse momento? Quantos filhos, maridos, esposas e irmãos jamais retornarão a suas famílias? O “lá longe” nos comove e precisa nos tocar. O mundo não pode continuar silenciado… de novo!