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J’accuse por Sami Goldstein

No início de 1895, o capitão Alfred Dreyfus, acusado de trair a pátria ao supostamente vender segredos do exército francês para os alemães, foi oficialmente destituído de sua patente. Sua insígnia e botões foram arrancados do uniforme, sua espada quebrada diante de um pelotão na Escola Militar. Pouco tempo depois, o ex-militar embarcava em um navio rumo à colônia penal da Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. O caso expôs o preconceito de seus superiores. Dreyfus era judeu e foi vítima do antissemitismo fortemente arraigado na sociedade e Forças Armadas francesas. Émile Zola, consagrado escritor daquele país, publicou no jornal L’Aurore do 13 de janeiro de 1898 sob a forma de uma carta ao presidente da República Francesa, Félix Faure, o artigo J’accuse (em português, eu acuso), expondo toda a trama. A manchete fez os exemplares se esgotarem em poucas horas e impactou na opinião pública. No célebre texto, proclama desde o início a inocência de Dreyfus. As palavras foram eternizadas: “Meu dever é de falar, não quero ser cúmplice. Minhas noites seriam atormentadas pelo espectro do inocente que paga, na mais horrível das torturas, por um crime que ele não cometeu.”.
Mais de 120 anos nos separam desse triste episódio e em pleno ano 2021 somos compelidos a assistir aberrações como a desta semana. Em um programa de televisão, o comentarista José Carlos Bernardi e Amanda Klein discutiam sobre a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um evento aberto no Parlamento Europeu. Após a opinião de Kein de “quem dera o Brasil chegar aos pés do desenvolvimento econômico da Alemanha”, Bernardi chocou ao disparar: “É só assaltar todos os judeus que a gente consegue chegar lá. Se a gente matar um monte de judeus e se apropriar do poder econômico deles, o Brasil enriquece. Foi o que aconteceu com a Alemanha pós-guerra”.
“Meu dever é de falar, não quero ser cúmplice”, acusaria Zola. Pode-se ouvir sua voz ecoando do túmulo. O preconceito de qualquer espécie leva a desgraça por onde passa. Inocentes pagam pela imbecilidade dos que se sentem superiores. A polarização desenfreada pela qual passa nossa nação abriu uma caixa de Pandora da qual saem todos os tipos de boçalidades. Qualquer um fala qualquer coisa para fanáticos ávidos por discussões fúteis e infundadas. Como judeu, não posso me calar. J’accuse. Como descendente daqueles que morreram incinerados ou em câmaras de gás, não posso me calar. J’accuse. Como brasileiro, não posso me calar. J’accuse. Como, sobretudo, ser humano, não posso me calar. J’accuse . Ainda mais quando estamos na semana da Consciência Negra que trata da luta contra o preconceito. É preciso erradicar conceitos errôneos e descaracterizados da verdade para que possamos encontrar o real caminho da prosperidade.
Ao comentarista, se é que é possível esta nomenclatura, sua fala é digna de pena. Pena pela obscuridade da humanidade que enterra toda e qualquer honra. Pedir desculpas é fácil. Mas as vítimas do preconceito, principalmente as que já perderam a vida pelo ódio sem sentido, não mais estão aqui para perdoar. J’accuse por todos aqueles que não mais têm voz para se defender.

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