Recentemente, soube de uma discussão entre dois adultos. O tema era antigo, conhecido e, infelizmente, ainda atual: bater ou não em crianças como forma de educar. A conversa, que já revelava uma naturalização preocupante da violência, escalou rapidamente até virar ameaça física entre adultos. Em meio ao conflito, veio a frase que tantas vezes ecoa em nossa sociedade: “Eu apanhei na infância e estou bem”.
Essa frase, repetida quase como um escudo moral, merece ser questionada. Estar “bem” significa o quê? Ter aprendido a resolver conflitos pela força? Naturalizar ameaças? Reproduzir violências sem perceber?
A ciência e a experiência acumulada nos mostram que a violência na infância deixa marcas profundas. Crianças que apanham não aprendem sobre limites, aprendem sobre medo. Não desenvolvem autonomia, desenvolvem estratégias de sobrevivência. A violência física afeta o desenvolvimento emocional, a capacidade de confiar, a autoestima e a forma como essa criança se relacionará com o mundo, consigo mesma e com os outros.
Mas por que ainda é tão comum justificar a agressão como método educativo? Porque crescemos em uma cultura que confundiu autoridade com autoritarismo e cuidado com controle. Porque admitir que fomos violentados dói. Porque questionar o que vivemos exige coragem e responsabilidade.
Educar não é ferir. Educar é acompanhar, orientar, estabelecer limites com presença, escuta e responsabilidade. A violência pode até gerar obediência momentânea, mas nunca gera vínculo, reflexão ou desenvolvimento saudável.
Talvez o maior desafio seja romper o ciclo e reconhecer: o fato de termos sobrevivido não significa que foi certo. Significa apenas que seguimos em frente carregando marcas que, muitas vezes, ainda não conseguimos nomear.
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André Luís de Oliveira
Pai da Giulia, Coordenador do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos no Paulínia Racing e Conselheiro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente
@profandreoliveira







