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Filme: Cavalo de Guerra

NOTA: 6

Tanto em publicidade, como no cinema, existe uma técnica já bem manjada de cativar emoção no público: exibir crianças e animais. A maioria absoluta das pessoas se deixa levar por esses dois personagens, especialmente quando estão numa situação opressora. E às vésperas do Oscar nada melhor do que Steven Spielberg utilizar essas duas figuras nas telas pra já dar as caras entre os prováveis indicados à estatueta dourada.

Numa Inglaterra às portas da Primeira Guerra Mundial, Joey é um cavalo arrematado num desastroso leilão por Mullan, um pobre fazendeiro arrendatário que emprega quase toda sua renda na compra do animal. Obrigado pela mulher a devolvê-lo e recuperar o dinheiro, seu filho Irvine se interpõe e se apropria de Joey, se comprometendo a treiná-lo e colocá-lo para trabalhar na fazenda da família. O laço entre menino e cavalo se estreita, mas quando a guerra estoura, eles são separados e Joey percorre uma longa jornada para reencontrar seu dono.

Não li o livro homônimo de Michael Morpurgo, mas nem foi preciso pra perceber um erro grave na adaptação de Lee Hall que coloca em seu roteiro o que acredito serem todas as histórias vividas por Joey, mostrando todos os exércitos pelos quais passou, a separação de seu dono, um momento onde quase encontra a paz na França etc, etc e etc. Com esse excesso de pequenas histórias tratadas praticamente em episódios por Lee, o roteirista literalmente nos obriga a engolir uma enxurrada de informação e nunca permite que o espectador tenha tempo de se envolver emocionalmente e até mesmo conhecer esse ou aquele personagem, algo tão caro num filme onde causar comoção e lágrimas é seu principal objetivo.

Seu erro também comprometeu todo o trabalho de montagem, obrigada a compilar algo que num livro teríamos dias para absorver numa projeção de pouco mais de duas horas, o que tirou por muito tempo de foco os dois protagonistas da trama: Joey e Irvine. Em alguns momentos esse ou aquele eram totalmente esquecidos, especialmente Irvine que depois de quase uma hora sem sequer ser citado, surge repentinamente já em combate.

Mas se há o erro grave no roteiro e montagem, Spielberg mostra ter aprendido muito com O Resgate do Soldado Ryan e proporciona cenas memoráveis da guerra como a fuzilamento da cavalaria inglesa que sem mostrar um soldado sequer sendo abatido, garante ao público toda a dor da perda. Expressa com maestria e quase humaniza o sofrimento dos cavalos no exército francês que trabalham até morrerem de exaustão. Sem falar na inimaginável cena em que um soldado inglês e um alemão trabalham em equipe para libertar Joey da morte certa em meio a um emaranhado de arame farpado.

E sua fotografia também, numa referência clássica a John Ford, garante quadros belíssimos, como o retorno de Irvine ao lar, tendo sua imagem projetada em silhueta, decorada por um belíssimo pôr-do-sol.

Se tem um conselho que é certo na área das artes é o famoso “menos é mais”. Numa tentativa de provocar toda emoção possível no público, entupindo-o com pequenas e tristes sub-tramas, Spielberg consegue exatamente o oposto: um espectador que sai do cinema quase tão frio quanto entrou, pois não teve tempo de se emocionar. Uma pena, pois a história mostrava grande potencial para ser um sucesso. Fica pra próxima.

Lucas Rolim é morador de Paulínia, formado em Linguagem Crítica Cinematográfica e estudante de Propaganda e Marketing