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Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

NOTA: 10

SINOPSE: Mikael é um famoso jornalista que está com a reputação abalada após cair numa armadilha e publicar falsas acusações de um mafioso sueco. Decidido a se isolar até que as coisas melhorem, ele é contratado pelo bilionário Henrik Vanger para investigar e descobrir quem matou sua sobrinha Harriet 40 anos atrás. O velho empresário acredita que o assassino seja da sua própria família, um núcleo composto por sádicos e nazistas. Para esse trabalho, Mikael conta com a ajuda de Lisbeth, uma hacker nada convencional no seu estilo e nas suas atitudes. Juntos, eles mergulham numa trama de violência extrema e põe suas próprias vidas em risco.

A primeiro filme da trilogia Millennium é sem dúvida de peso. Conta com um diretor de peso, um elenco de peso, um roteiro de peso enfim, uma produção eficaz que já o torna com certeza um dos melhores filmes do ano, sendo ainda melhor que sua versão sueca de 2010, já  excelente.

A adaptação do livro de Stieg Larsson por Steven Zaillian consegue acrescentar elementos importantes deixados de lado pela versão anterior, como boa parte da história de Lisbeth Salander que se mostra crucial para entender a personagem e suas motivações. Além disso, Zaillian facilita a compreensão de uma trama difícil por essência, deixando cada descoberta da dupla Mikael/Lisbeth bem explicada sem deixar espaço pra dúvida. E elimina elementos desnecessários como a sentença em regime fechado que Mikael deveria cumprir no livro e que aqui é acertadamente descartada.

A direção de David Fincher é impecável e não economiza na intensidade de cenas que mesmo sendo extremamente fortes, são essenciais para entender aquele mundo, seus personagens e o mistério do assassinato de Harriet. Além disso, Fincher acerta numa montagem que privilegia igualmente tanto Mikael quanto Lisbeth, mostrando o primeiro já mergulhado na investigação, enquanto destrincha a vida da segunda, mostrando que Lisbeth tinha todos os motivos do mundo pra se interessar pelo caso. Por fim, O Iluminado de Stanley Kubrik mostrou que às vezes a neve consegue criar um elemento mais aterrorizante do que qualquer escuridão e aqui não é diferente: ela é quem instala o clima de tensão na narrativa durante toda sua duração.

E com o time de excelentes atores contracenando em perfeita sintonia, fica fácil pra qualquer diretor fazer um bom filme. Nunca vi Stellan Skarsgard tão bem, ele interpreta um Martin que é exatamente o oposto do que Henrik dizia de toda a sua bizarra família. Carismático, educado, atencioso com o tio e com a estadia de Mikael, Martin inspira confiança no primeiro contato. Cristopher Plummer, emprega em seu Henrik todo o cansaço advindo da sua avançada idade, e mesmo no fim da vida seja a ser comovente seu empenho em descobrir o que houve com sua Harriet, não mais por justiça mas apenas por acreditar que isso trará algum conforto pra sua existência. E Daniel Craig está muito diferente do invulnerável James Bond que ele interpreta tão bem, dando espaço a um Mikael apresentado de modo vergonhoso pela estupidez de sua matéria investigativa na revista Millennium,  que vai evoluindo de forma avassaladora, tirando o direito de qualquer um pensar que seu tropeço no início da história define sua personalidade. Não se enganem: Mikael é um dos melhores no que faz.

Mas o maior destaque de Os Homens que Não Amavam as Mulheres só poderia ser de Rooney Mara, numa das melhores atuações dos últimos anos. Lisbeth é de uma complexidade intrigante, com uma personalidade indecifrável. E mesmo sendo uma hacker tão destemida, uma mulher tão segura de si, ainda contrasta com a dependência financeira de seu governo que a impede de se criar sozinha por ser uma cidadã diagnosticada como de alta periculosidade, coisa que a torna ainda mais interessante. Seus gritos estridentes e incessantes quando é atacada por seu tutor (é o máximo que vou revelar aqui) dão vontade de invadir a tela e fazer algo para protegê-la. Felizmente somos premiados pela catarse de vê-la se vingando com chave de ouro, na melhor cena da trama.

É impressionante como dois filmes baseados em um mesmo livro conseguem ser tão brilhantes mesmo que totalmente diferentes um do outro. A versão de David Fincher talvez se saia melhor, pois é o tempo toda tensa, misteriosa e eletrizante. Um filme tão envolvente que chega a despertar o desejo que não acabe nunca. Felizmente ainda temos mais duas sequencias por vir, todas protagonizadas por Rooney Mara, minha candidata ao Oscar de Melhor Atriz.

Lucas Rolim é morador de Paulínia, formado em Linguagem Crítica Cinematográfica e estudante de Propaganda e Marketing