A eleição para presidente passou pelo primeiro turno e agora seguimos para o segundo. Com ele, também continuam as conversas, as discussões, as divergências e as escolhas que fazem parte da vida democrática. Mas, para além de quem será eleito, talvez seja importante refletirmos sobre o que estamos ensinando às nossas crianças e aos nossos adolescentes sobre democracia.
Democracia não se resume ao voto. O voto é uma das suas expressões mais importantes, mas viver democraticamente também significa aprender a conviver com as diferenças, respeitar opiniões distintas, reconhecer direitos e compreender que ninguém deve ser excluído das decisões que afetam a sociedade.
Uma sociedade justa não se constrói quando todos pensam da mesma maneira. Ela se constrói quando pessoas diferentes podem expressar suas ideias, participar das decisões e ter seus direitos respeitados. Isso exige diálogo, responsabilidade e, principalmente, o reconhecimento de que a democracia não pode depender apenas da nossa concordância com os resultados. É justamente quando somos contrariados que o compromisso democrático também precisa se fazer presente.
Talvez, neste momento, uma das perguntas mais importantes que precisamos fazer não seja apenas o que esperamos do próximo presidente, mas também aquilo que estamos dispostos a aceitar em nome de nossas escolhas. Quando votamos, escolhemos propostas, pessoas e projetos de sociedade. Mas será que também refletimos sobre o que pode acontecer com os direitos que já conquistamos? Sobre o valor das instituições, sobre as regras que organizam nossa convivência e sobre a possibilidade de mudar as próprias regras do jogo? Uma Constituição não é apenas um conjunto de palavras que pode ser alterado conforme a vontade de quem ocupa o poder. Ela também representa limites, garantias e compromissos construídos para proteger a sociedade, inclusive quando nossas escolhas políticas são diferentes. Por isso, talvez valha a pena pensar se estamos escolhendo apenas aquilo que desejamos para o presente ou se estamos considerando também o país que queremos deixar para as próximas gerações.
E como nossas crianças e adolescentes estão aprendendo tudo isso? Não apenas nas escolas, nos livros ou nas atividades sobre cidadania. Eles aprendem observando como os adultos conversam, como lidam com quem pensa diferente e como tratam aqueles que não compartilham das mesmas escolhas. Aprendem quando são ouvidos, quando podem participar das decisões e quando percebem que suas opiniões têm valor, mesmo que não sejam aceitas por todos.
Falar de democracia com crianças e adolescentes é também ajudá-los a compreender que direitos não são privilégios e que a participação não deve ser um favor concedido a algumas pessoas. É mostrar que uma sociedade democrática precisa garantir espaço para todos, especialmente para aqueles que historicamente tiveram menos oportunidades de serem ouvidos.
Defender a democracia é defender a possibilidade de construirmos uma sociedade mais justa, na qual as diferenças não sejam motivos para o ódio, a exclusão ou a violência. É compreender que nenhuma escolha eleitoral encerra essa tarefa. Ela continua nas nossas relações, nas instituições, nas políticas públicas e na maneira como cuidamos uns dos outros.
Talvez uma das maiores responsabilidades dos adultos seja garantir que as novas gerações não apenas aprendam o significado da palavra democracia, mas experimentem seus valores no cotidiano. Afinal, não podemos esperar que crianças e adolescentes se tornem adultos comprometidos com a participação, o respeito e a justiça se não oferecermos a eles oportunidades de viver essas experiências desde agora.
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André Luís de Oliveira
Pai da Giulia, Coordenador do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos no Paulínia Racing, Conselheiro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e Conselheiro suplente do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (COMSEA) de Paulínia
@profandreoliveira







