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A Invenção de Hugo Cabret

NOTA: 5

SINOPSE: Hugo é filho de um relojoeiro por quem tem uma grande admiração e apego. Ele prematuramente aprende sua função e juntos passam o tempo restaurando antigas máquinas. Uma delas é um robô do qual desconhecem a função. Infelizmente, seu pai morre num acidente antes de concluir sua obra e Hugo fica órfão vivendo dentro do relógio da Estação de Trem de Paris, tentando finalizar sozinho a máquina deixada por seu progenitor. Quando finalmente consegue, ela lhe faz uma revelação que o envolve diretamente na história de um dos maiores cineastas de todos os tempos, George Méliès.

A primeira sessão de cinema da história aconteceu em Paris, em 1895. O filme? Um trem chegando a uma estação e…só! Tudo acontece em apenas 56 segundos. Mas ainda assim, todas as pessoas que estavam naquela sala levaram um verdadeiro susto acreditando que o veículo sairia da tela, sendo tomadas de espanto ao conferir que tudo aquilo não se tratava de uma série de fotos colocadas em sequencia.

Hoje, 117 anos depois, em plena era 3D, foi possível conferir com essa tecnologia em As Invenções de Hugo Cabret a mesma cena representada naquela minúscula sala mais de um século antes, um contraste imenso entre esses dois mundos, mas que ainda assim impressionam e encantam de modo semelhante (a primeira vez que vi um filme em 3D, por puro reflexo desviei diversas vezes de objetos na tela). E essa verdadeira homenagem ao cinema é sem dúvida o maior trunfo de Martin Scorcese em seu novo longa.

Não contente, ele ainda introduz no seu longa George Méliès (interpretado por Bem Kingsley), um dos primeiros cineastas da história (que estava presente na sessão da chegada do trem) e que contribuiu consideravelmente para construir de forma tão sólida a sétima arte. Méliès inventou os efeitos especiais através de truques de montagem, maquiagem e apetrechos de ilusionismo, como bombas de gás. Claro que hoje suas técnicas são precárias e qualquer um consegue reproduzir com uma câmera caseira, mas ele abriu às portas da máquina de sonhos que é o cinema até então usado apenas para retratar cenas sem propósito do cotidiano. Sem sua visão das possibilidades que a arte proporcionava, ela jamais teria alcançado o status que possui hoje em transformar o impossível em possível.

Mas infelizmente – e com pesar digo isso – essa é a única coisa que vale a pena em A Invenção de Hugo Cabret. Em paralelo a toda essa homenagem ao cinema, somos entediados com uma história sem graça do personagem título e sua amiga Isabelle. Hugo é vivido por Asa Butterfield que em nenhum momento consegue despertar alguma comoção pelo status de abandono e miséria de seu personagem e muito menos imprime algum interesse em adentrarmos na sua aventura em descobrir o significado do desenho feito pela sua “invenção”, um storyboard de Viagem a Lua, maior filme de Méliès que o levaria a descobrir a existência de do diretor e perceber que este esteve o tempo todo diante de seus olhos. Pra completar, Scorcese enche a história de subtramas sem qualquer função pra narrativa que só servem para render alguns sofridos minutos a mais na trama, como o romance frustrado e frustrante entre a dona de um café e um jornaleiro.

Talvez a única subtrama realmente interessante seja a do inspetor da estação onde Hugo vive que por ter sido abandonado pelos pais e criado em um orfanato, pune severamente todos os órfãos que captura apenas para se sentir vingado pela injustiça que ele sofrera em sua vida.

O ponto de virada imenso do filme, que começa com um menino órfão numa estação de trem e acaba com a história de um dos maiores cineastas de todos os tempos é interessante apenas pela segunda parte. É uma tarefa de extrema dificuldade manter um roteiro bom por completo quando se faz uma mudança tão abrupta como essa. Uma das partes é sempre muito prejudicada. Somente três vezes vi essa técnica dar certo: Psicose (1960), Um Drink no Inferno (1994) e Cópia Fiel (2011). No mais, sempre foi uma experiência frustrante.

Com isso, acredito que Scorcese teria sido perfeito em contar apenas a história de Méliès que por si só rende um longa que garante brilho nos olhos, sorrisos e lágrimas com sua trajetória que foi de dar vida a fantasia à derrocada e o esquecimento. Além de acrescentar um ótimo conteúdo sobre cinema ao espectador que ao invés disso teve que se contentar com uma história sem graça, chata e entediante que é a cara da Sessão da Tarde.

Decepciona ver um diretor que vinha de um trabalho impecável em A Ilha do Medo, possuir um material tão bom nas mãos e simplesmente desperdiçá-lo.