Início Destaques Diretora de creche usa falta de estrutura para coagir mães a desistir...

Diretora de creche usa falta de estrutura para coagir mães a desistir de vagas

Elas foram pressionadas a não deixarem seus filhos frequentarem à creche com argumentos apelativos como falta de higienização e até risco de vida

A diretora da Creche Julio Perini III, disse à mãe A.C. que o local está com surto de estomatite e virose por falta de higienização

 Duas mães procuraram esta semana a equipe de reportagem do Jornal Tribuna para relatar queixas contra a direção da Creche Júlio Perini III (Chácara Sônia), no bairro Morumbi. De acordo com elas, a diretora Tânia Lopes Pereira Delmonde às coagiu para que não aceitassem as vagas na creche, fornecida através de Mandato Judicial. Uma delas relata que ao procurar a responsável pelo setor na Secretaria de Educação, não teve a atenção necessária para registrar formalmente a reclamação.

Com seu filho de um ano e quatro meses nos braços, a mãe, que preferiu se identificar apenas como A.C. expôs sua indignação com a agressividade que recebeu no momento em que faria a matrícula de seu filho. De acordo com A., há um ano ela aguarda uma vaga na rede municipal de ensino e por não ter com quem o deixar, já perdeu quatro oportunidades de emprego. “Quando entrei na lista de espera, tinha mais de 100 crianças na frente dele. Em fevereiro deste ano, ela já era o número 2 da lista. Achei que a vaga iria sair rápido, mas o pessoal da Secretaria de Educação disse que só o chamariam em 2012. Não tive outra alternativa, entrei com pedido judicial porque preciso trabalhar, meu marido sustenta a casa sozinho e a situação está cada vez mais difícil”, conta.

Com a ajuda de um vereador da cidade, A.C. entrou com o pedido de vaga na Justiça e em pouco mais de um mês, a direção da Creche Júlio Perini III entrou em contato com ela anunciando a vaga de seu filho. “Nossa, para mim foi a luz no fim do túnel, fiquei muito feliz, mas chegando lá, veio a decepção”.

De acordo com a mãe, a diretora a tratou de maneira ríspida e um de seus primeiros questionamentos foi os valores gastos por ela na ação judicial que determinou a vaga naquela creche. “Ela me perguntou de maneira hostil quanto eu paguei no Mandato Judicial e disse que se eu deixasse meu filho lá, ele iria para casa com assaduras e doente, porque naquela creche não havia higienização e eles estavam com surto de estomatite e virose”.

A. contou também que se assustou com os argumentos usados para convencê-la a não deixar seu filho frequentar a creche. “Ela disse que a creche está superlotada, que as crianças ficam espalhadas sem atenção necessária porque não tem funcionário suficiente, que dormem no corredor, que em dias de chuva ficam todas amontoadas dentro das salas e que a juíza que assina os Mandatos não vê isso, só vai mandando criança para lá”.

Reconhecendo as deficiências da rede municipal de ensino de Paulínia, A. explicou que não tem mais como ficar com seu filho em casa. “Eu sei que tem muita criança, entendo que as educadoras estão sobrecarregadas, que falta funcionário, mas eu preciso da vaga para poder trabalhar. Mesmo explicando a minha necessidade, a diretora me olha e fala: ‘você acha que vai conseguir um emprego agora? Que mãe é essa que deixa o filho sofrer? Ultimamente as mães só estão fazendo filho para colocar na creche’. Ela ainda disse para uma babá ‘essa é mais uma mãe de Mandato, estou tentando negociar com ela, vamos ver’. Me senti coagida e apavorada com as coisas que ela me disse”.

A mãe afirmou que se sentiu ainda mais pressionada quando recebeu a ligação de seu marido no celular, informando que uma pessoa da creche havia ligado para ele. “Depois de tudo que a diretora falou, eu disse que primeiro iria conversar com meu marido com calma para decidirmos juntos o que fazer e depois entrava em contato, mas enquanto eu falava com a Tânia, uma outra pessoa ligou para meu marido dizendo que eu queria falar urgente com ele sobre a creche do meu filho. Ela queria que eu desse a resposta ali, na hora”.

Com a argumentação da diretora e a preocupação do marido, A.C. decidiu que levaria seu filho para creche somente no próximo ano, quando ele naturalmente seria transferido para outro estabelecimento de ensino público de acordo com sua faixa etária. “Não tive como dizer não. Estava nervosa e com medo de deixar meu filho em um lugar desses. Tive medo dele ser maltratado, então assinei um termo de responsabilidade para ficar com ele em casa. A situação está difícil, mas pelo menos fico tranquila quanto a isso”.

Outro Caso
A técnica em enfermagem E.F. tem a mesma reclamação. Ela conta que passou por uma situação bem parecida com a de A.C., mas que se sentiu ameaçada pela diretora. “Ela disse que se a minha filha ficasse lá, a responsabilidade era minha, porque ela estava me avisando que as crianças correm risco de vida naquele lugar e que no mínimo ela iria voltar para casa doente”.
A mãe contou também que sofreu a mesma pressão para assinar o termo de responsabilidade. “Eu disse que primeiro iria ver se conseguia alguém para deixar minha filha, mas ela queria que eu assinasse logo aquele papel, que decidisse na hora o que fazer, mas não assinei e disse que entraria em contato para dar a resposta. Não consegui ninguém e agora também estou com medo da minha filha sofrer naquele lugar”.

Na Prefeitura
Em busca de uma solução para seu caso e na tentativa de registrar formalmente sua reclamação, A.C. procurou a responsável pelo setor de creches da Secretaria de Educação de Paulínia, Rosária de Fátima de Oliveira, mas disse que não teve sucesso. “Fiquei quase uma hora na recepção esperando ela me atender, e quando entrei na sala dela não fiquei nem dez minutos. Quando comecei a falar, ela me interrompeu e disse: ‘já sei, a Tânia botou o terror em você, né?’. Eu não tive chance de explicar o que aconteceu, de usar as palavras que a Tânia usou e de contar como eu me sentia. Ela só me falou para voltar no outro dia de manhã para ver o que ela podia fazer. Ela nem pegou meu nome, nem sabe como eu meu chamo, onde eu moro. Nada. Sai de lá chorando pela falta de sensibilidade, de atenção dessa mulher e vim procurar o Jornal. A minha esperança é que vocês divulguem essa falta de respeito com as mães de Paulínia”.
Depois que a reportagem conversou com as mães e com a Secretaria de Educação, A.C voltou à Prefeitura e conseguiu transferência para creche Ferdinando Viacava, no Monte Alegre I, próximo de sua residência.

 

De acordo com a secretária de Educação, os vereadores podem ser responsáveis pelo fim do problema aprovando o Proeb

O outro lado

O Jornal Tribuna procurou a secretária de Educação, Maria Estela Sigrist Betini, que nos atendeu em sua sala juntamente com a diretora do Departamento de Educação Infantil, Rosária. Questionada sobre o assunto, a diretora disse que a situação da mãe seria resolvida. “Essa senhora entrou na minha sala, não quis se sentar e estava com o neném no colo. Ela me contou sim tudo o que aconteceu na escola, inclusive que a diretora conversou com o marido dela pelo telefone e pra eu saber disso é que ela teve tempo para me contar, mas como ela estava muito ansiosa e a criança inquieta, pedi que ela voltasse no dia seguinte para resolvermos”, disse.
De acordo com Rosária, o atendimento não poderia ser imediato porque havia outros compromissos agendados na ocasião e seria preciso pesquisar alternativas para o caso dessa mãe e verificar a disponibilidade de outras creches. “Como eu já sabia o que tinha acontecido, no dia seguinte, com mais tempo, eu ia sentar com ela e com a pessoa responsável pelas transferências e ver como solucionaríamos o problema. Ela disse tudo bem, muito obrigado e foi embora. Pensei que ela havia compreendido”.
Sobre a forma como a mãe foi tratada na creche, Rosária disse que já havia conversado com a diretora Tânia. “Eu não sei o real teor da conversa, mas sei que a intenção da diretora na hora não foi assustar ou coagir e sim alertar. Como a mãe não está trabalhando, a Tânia sugeriu que ela agüentasse mais um pouco em casa com a criança para ser melhor atendida em outro lugar no ano que vem, até porque aquela creche está em um prédio alugado, é uma casa e as salas são todas muito pequenas. Claro que o modo da Tânia falar complicou um pouco, assustou, mas foi o que eu fiz, disse verifique seu modo de falar. Claro que ela teve uma ética duvidosa quando perguntou sobre os valores do mandato, mas já conversei com ela, ela já foi advertida verbalmente”.
Para a secretária de Educação, o grande problema é mesmo a quantidade de crianças para poucos funcionários. “O grande problema é a superlotação. A gente não tem a capacidade de atender todos os alunos que estamos recebendo, então se criou uma indústria de mandato de segurança que faz a qualidade do nosso ensino cair muito. Temos uma lei na Câmara Municipal para resolver o problema de imediato, a exemplo de cidades da região, como Americana, Piracicaba, Jaguariúna e Sumaré. É a Lei do Proeb”.
Segundo a secretária, cada uma dessas cidades criou um sistema que pudesse desafogar a creche na medida que tenha um aumento não previsto da população, que é o que está ocorrendo em Paulínia. “Nesses dois últimos anos, se você pega o número de crianças que nasce e o número de crianças que a gente matricula em creche, não bate, porque quando a gente pergunta de onde a família é, eles falam que acabaram de mudar para cá, mas mesmo assim a prefeitura é obrigada a matricular essas crianças na rede pública”.
Para Estela, uma alternativa para resolver o problema a curto prazo é mesmo a aprovação do Proeb. “O Programa Pró-Educação Básica deu certo em outras cidades e funciona muito bem em outros países. Venho pesquisando isso desde 2009 e o projeto foi adaptado para a realidade de Paulínia e foi para aprovação dos vereadores na Câmara. Só estamos aguardando para colocar em prática”, relata.
Outra sugestão apontada pela secretária seria a liberação das duas creches que estão embargadas pela Justiça. “Uma é a do Cooperlotes. Nós tínhamos uma liminar autorizando a utilização do prédio, mas a construtora entrou com um mandato que cassou essa liminar e agora aguarda a decisão da juíza. Outra é a da antiga Fuppesp, que está embargada por causa de suspeitas de contaminação do solo, mas já foi provado que não tem, fizeram todas as análises, já tem o laudo e também já está na mão da juíza para assinar a liberação”, afirma.

Proeb
De acordo com a secretária de Educação, uma alternativa a curto prazo para a superlotação é o funcionamento do Programa Pró-Educação Básica (Proeb), que tem a finalidade a transferência de recursos financeiros às escolas particulares de ensino infantil tendo como objetivo assegurar às crianças de Paulínia o direito a Educação e ao ensino de qualidade social, como cita o Artigo 2º do Projeto de Lei. “Fica o Poder Executivo Municipal a firmar convênio ou contrato com organizações, associações, entidades, fundações, instituições, escolas particulares, com ou sem fins lucrativos, de educação infantil e ensino fundamental, objetivando o aumento de vagas na educação infantil às crianças de 0 (zero) à 5 (cinco) anos e a alunos de ensino fundamental que não obtenham vagas na Rede Publica de Ensino”.
“Esse programa é um modelo que adotamos de cidades da região que resolveram seus problemas de superlotação das creches. Esse projeto já foi enviado para a Câmara Municipal e desde julho aguarda aprovação. Está na mão dos vereadores solucionar ou não esse problema”, conclui Estela.