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O Artista

NOTA: 10

SINOPSE: George Valentin é o maior astro de Hollywood da década de 20, época que existiam apenas filmes mudos. Peppy Miller é uma fã de seu trabalho e está tentando começar uma carreira de atriz. A tecnologia avança e agora os filmes são falados. Por puro orgulho, George se recusa a aceitá-la, acreditando que isso era apenas uma moda passageira. Porém, o cinema falado fica e ele vê sua carreira ruir, enquanto a jovem Miller está em plena ascensão, numa completa inversão de papéis. Sem trabalho e completamente falido, George mergulha em depressão enquanto ainda sonha com alguma oportunidade na sétima arte.

Quando foi criado, o cinema era definido como a arte de contar histórias através de imagens, e assim foi por muito tempo até chegar o primeiro filme falado em 1927, O Cantor de Jazz, que mudou em definitivo toda a forma de se trabalhar com essa arte. Embora uma mudança muito bem vinda pelo público, a mesma foi uma verdadeira catástrofe para a maior parte dos astros daquele tempo que seja por ceticismo, orgulho ou por não terem nenhum talento falando, caíram no limbo e viram suas carreiras sumirem.

Em 1950, Gene Kelly fez uma sátira excelente desse período em Cantando na Chuva, onde vivia um ator de filmes mudos que busca se adaptar a essa transição. Seu musical é uma pérola do talento e bom humor, arrancando risos de um momento delicado de Hollywood. Mas eis que em 2012, Michel Hazanavicius resgata o mesmo tema, mas na sua essência melancólica retratando o contraponto de uma velha geração cética e sua degradação iminente, e a nova geração aspirando por novidades, abertos a qualquer mudança e desse modo tomando o lugar dos seus antigos ídolos.

Essa premissa Michel consegue resumir numa única cena. Enquanto George Valentin é demitido do estúdio – em que por muitos anos fora o astro principal – desce a escada do prédio abalado, ele topa com a jovem Peppy Miller radiante, subindo a mesma escada para assinar um contrato na mesma produtora. Uma perfeita metáfora de fracasso e sucesso.

E o diretor também teve o cuidado de aplicar toda a linguagem cinematográfica da década de 20 na sua composição, sendo fiel até mesmo ao formato quadrado da tela. Numa época em que os efeitos especiais podem fazer qualquer coisa, ele volta no tempo e dirige um filme mudo e em preto e branco, presenteando o público ao mostrar como o cinema funcionava até a década de 20, além da opção ser perfeitamente coerente com seu roteiro. Afinal, se estamos falando de cinema mudo mesmo, por que não fazer um filme sem som?

Sua exclusão dá a oportunidade de criar cenas belíssimas que contam muito apenas com imagens. A mais tocante é quando Peppy, com um dos braços vestindo o smoking de George, se abraça imaginando ser seu ídolo. Há outras duas onde os letreiros é quem dão o tom: a primeira é no encontro entre Peppy e George no seu camarim onde atrás do galã há o cartaz de um filme chamado “The Thief of Hearts” (O Ladrão de Corações) e mais adiante, com o astro já em declínio, atravessa a rua onde quase é atropelado lê-se no letreiro do cinema ao fundo “The Lonely Star” (A Estrela Solitária). Duas frases que falam por si.

Laurence Bennet faz um excelente design de produção, onde logo no início vemos o famoso letreiro de Hollywood ao fundo com sua concepção original, ou seja, escrito HOLLYWOODLAND. Um detalhe que passaria despercebido por muitos.

Por fim, o elenco como um todo faz um trabalho excepcional, exagerando constantemente nos gestos e nas expressões faciais para dizer o que suas vozes não podem. A cada semana me complico mais nos palpites do Oscar, agora já acho que Jean Dujardin (George Valentin) merece a estatueta de Melhor Ator só pelo desafio de participar de uma produção tão complexa. E deviam criar o prêmio de Melhor Bicho de Estimação porque o entrosamento de George e seu pequeno cão arranca vários “aahhhhhhhh”s do público.

Partindo de um ponto de vista completamente oposto a Cantando na Chuva, O Artista se firma como um filme de cenas igualmente belas e melancólicas e garantem um espetáculo que só o cinema pode proporcionar, indo contra todas as convenções atuais. Esse já tem lugar reservado na minha prateleira e com certeza já é um dos melhores filmes do ano.