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Pós-Covid

Sami Goldstein
Como você imagina o pós-Covid? Confesso que se me fizessem essa pergunta por volta de abril do ano passado, pensaria muito antes de responder. Por vezes, achei que isso tudo talvez jamais passasse; por outras, imaginei um cenário apocalíptico bem ao estilo Mad Max. Fato é que as pesadas e dolorosas cenas de caixões sendo amontoados em caminhões frigoríficos invadiram nosso cotidiano de tal forma que qualquer luz no fim do túnel mais poderia ser um trem vindo em nossa direção que um sinal de que haveria solução. Repentinamente, vimo-nos enclausurados em nossas casas sendo bombardeados por notícias cada vez menos animadoras. Abrimos as janelas ao mundo para aplaudir os profissionais da saúde para em seguida temermos qualquer contato com outra pessoa. Deixamos de visitar pais, mães, familiares, beijos e abraços ficaram no passado e o pesadelo só aumentava. Éramos, como sempre afirmei nessa coluna, o hospedeiro perfeito. Politizamos, negamos e por vezes torcemos a favor do vírus, tudo em nome de bandeiras manchadas de sangue e dor. Tornamo-nos o epicentro e o pária do mundo. Tínhamos – como sempre tivemos – a melhor equipe de vacinação da galáxia. Faltava a vacina. Era tudo que precisávamos. Ninguém precisava ensinar ao Brasil o que fazer. Custou mas ela veio. E o dream team tupiniquim da seringa e agulha deu seu show. Apesar da indisciplina do brasileiro impondo o fim da pandemia em seu pico, a vacinação deu resultado. De patinho feio a exemplo, graças ao SUS. Ainda estamos distantes de um pós-Covid. Mas a luz no fim do túnel, dessa vez, é um horizonte de esperança. Pelo menos no que se refere ao vírus.
Já em outras áreas, as marcas são profundas, por vezes indeléveis e até mesmo mais duradouras que a própria pandemia. Ao menos 12.211 crianças de até seis anos de idade no Brasil ficaram órfãs de um dos pais vítimas da covid-19 entre 16 de março de 2020 e 24 de setembro deste ano. Os dados foram levantados com base no cruzamento de registros de nascimento e óbito nos 7.645 cartórios de registro civil do país. Quase 20 milhões de brasileiros declararam passar 24 horas ou mais sem ter o que comer em alguns dias, segundo novo levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). Para finalizar esse cenário de horror, o endividamento das famílias brasileiras bateu recorde, com o valor total das dívidas chegando a 59,9% da renda média anual, segundo dados mais recentes do Banco Central enquanto o país volta a registrar inflação de dois dígitos, a maior para o mês de setembro desde 1994. Obviamente que nem tudo é culpa da pandemia. O Brasil já não vinha fazendo a lição de casa há anos e bem antes de sequer ouvirmos pela primeira vez a palavra Covid, os sinais críticos estavam evidentes. Quem me acompanha nas redes sociais certamente se lembrará de frases como “seja formiga, não seja cigarra” em alusão à famosa fábula do trabalho em equipe e preparação para o rigoroso inverno. E o inverno chegou, escancarando a falta de bússola que faz do Brasil um país movido a picuinhas enquanto famílias procuram ossos e amontoam lenha para cozinhar.
Não sei como será o novo normal. Mas sei que, passada essa cortina de fumaça da saúde, o país estará envolto em problemas cada vez piores e mais profundos. Quiçá deixaremos de usar máscaras e voltaremos aos beijos e abraços. Mas a dignidade por muitos perdida demorará bem mais para voltar. Para tantos, a luz no fim do túnel de fato era um trem em alta velocidade que os atropelou para sempre. Precisamos reagir, Brasil!

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